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ASTM x ASME em tubulação: o que muda na prática (sem confusão)
Em projetos de tubulação é comum ver frases como “tubo ASTM A106” e, na mesma documentação, “tubo ASME SA-106”. Isso gera dúvidas reais: é o mesmo material? muda a inspeção? muda o certificado? muda o uso em caldeira/vaso? Neste post, você vai entender de forma direta o que é ASTM e o que é ASME, onde cada um entra no projeto, como ler a nomenclatura (A106 x SA-106), o que muda em termos de código, rastreabilidade, certificação e aplicação em indústria e naval.
Tempo de leitura: 18–25 min • Autor: Equipe Engeminds • Revisão técnica: Eng. Wellington Souza
TL;DR — resposta rápida
- ASTM publica especificações de materiais e produtos (química, propriedades, requisitos de fabricação e ensaios).
- ASME publica códigos de projeto (B31, BPVC) e também adota materiais via Seção II (SA/SB), geralmente baseados em ASTM.
- A106 (ASTM) e SA-106 (ASME) costumam ser equivalentes em base técnica, mas a versão ASME é a “aceita” dentro do universo ASME (caldeiras, vasos, alguns requisitos de código).
- O que muda “na vida real”: qual documento manda (código/especificação do cliente), certificação (MTR), rastreabilidade, marcação, requisitos adicionais e aceitação.
- Regra prática: se o projeto é regido por ASME, especifique e compre por SA/SB; se não, ASTM pode ser suficiente — sempre alinhado ao código/cliente.
1) O que é ASTM e o que é ASME (sem enrolação)
1.1 ASTM: “a especificação do produto/material”
ASTM (ASTM International) publica normas técnicas que definem requisitos para materiais e produtos: composição química, propriedades mecânicas, tratamentos térmicos, tolerâncias dimensionais, tipos de ensaio, critérios de aceitação e marcação. Em tubulação, exemplos clássicos incluem: ASTM A106 (tubo sem costura para alta temperatura), ASTM A53, ASTM A333, ASTM A312 (inox), etc.
1.2 ASME: “o código de projeto + aceitação no universo ASME”
ASME (American Society of Mechanical Engineers) é conhecido pelos códigos de projeto e construção, como: ASME B31 (tubulação), ASME BPVC (caldeiras e vasos de pressão). Além disso, o ASME mantém o conjunto de materiais aceitos pelo código na ASME Section II. Nessa seção, muitos materiais aparecem como SA-xxx (ferrosos) e SB-xxx (não ferrosos), frequentemente baseados em uma norma ASTM equivalente.
2) “ASTM A106” vs “ASME SA-106”: é a mesma coisa?
Na maioria dos casos, SA-106 é a versão “ASME” do material ASTM A106, adotada para uso em aplicações regidas por códigos ASME (especialmente BPVC e, dependendo do contexto, requisitos de B31 e especificações do cliente). A base técnica costuma ser muito semelhante, mas a aceitação formal e alguns detalhes podem variar por:
- edição/ano da norma vigente no contrato;
- requisitos suplementares (quando aplicáveis);
- exigências de rastreabilidade e certificação para atender o código.
2.1 Como pensar nisso do jeito certo
- ASTM diz “como o material deve ser”.
- ASME diz “quando e como você pode usar esse material dentro do código”.
- Se o projeto/cliente exige ASME, você precisa garantir que o material esteja no “universo ASME” (Seção II) e que o certificado esteja correto.
3) Onde ASTM/ASME entram na documentação de tubulação
3.1 Datasheet / Line list / Spec
A especificação de linha define material do tubo, conexões, flanges, válvulas, classe de pressão, corrosão, espessura, END e pintura. Aqui é onde você vai ver “ASTM/ASME” na prática — e o que está escrito ali vira obrigação de compra e fabricação.
3.2 Isométricos e MTO
Isométricos e MTO normalmente puxam do spec: material do tubo e fittings (ex.: A106/SA-106, A234 WPB, A105, A182 F316, etc.). Se você alterna ASTM e ASME sem critério, pode gerar inconsistência de compra e dúvidas no recebimento.
3.3 Código de projeto (B31.x / BPVC)
O código define critérios de dimensionamento (pressão/temperatura), fatores e requisitos de fabricação/inspeção. Ele também define quais materiais são aceitos e como os dados do material entram no cálculo (tensão admissível na temperatura, por exemplo).
4) O que muda na prática (compra, recebimento, fabricação e inspeção)
4.1 Compra e disponibilidade
Para muitos itens comuns, fornecedores já oferecem tubos e acessórios com dupla marcação ou com certificação compatível, mas isso não deve ser assumido. Se o seu projeto pede ASME SA/SB, deixe isso explícito na requisição.
4.2 Certificado (MTR) e rastreabilidade
O MTR (Material Test Report) é onde mora o “sim ou não” do recebimento. O que você precisa conferir:
- Norma e edição declarada (ex.: ASTM A106 / ASME SA-106), conforme pedido;
- Grau (ex.: Gr. B, Gr. C, etc.) e tratamento térmico quando aplicável;
- Composição química e propriedades mecânicas mínimas;
- Heat number, identificação e marcação no tubo (rastreabilidade física);
- Ensaios exigidos (hidrostático, END, impacto, etc.) conforme a norma e o cliente.
4.3 Aceitação por código (quando isso vira “ponto de auditoria”)
Em contratos com exigência ASME (principalmente BPVC e sistemas com auditoria forte), é comum que a aceitação de materiais seja verificada com rigor. “Quase igual” não passa: você precisa do material aceito pelo código e do certificado consistente.
4.4 Fittings, flanges e válvulas: atenção aos pares clássicos
Em tubulação, a “família” do material não é só o tubo. Você tem:
- Tubos: A106 / SA-106, A53 / SA-53, A333 / SA-333, A312 / SA-312, etc.
- Conexões (fittings): ASTM/ASME A234 WPB (aço carbono), A403 (inox), etc.
- Flanges/forjados: A105 (CS), A182 (inox/ligas), A350 (baixa temperatura), etc.
- Parafusos: A193/A194 e equivalentes em specs ASME conforme aplicável.
O “muda na prática” é garantir que todo o conjunto esteja coerente com o spec e o código.
5) Como escolher corretamente (regra prática para não errar no projeto)
- Passo 1: identifique o código de projeto e exigência contratual (cliente/classificação/naval/offshore).
- Passo 2: defina o Piping Class / Spec (material, pressão, temperatura, corrosão e END).
- Passo 3: se o projeto é regido por ASME/cliente exige ASME, especifique material como SA/SB (Seção II) + grau.
- Passo 4: alinhe compra: requisição, MTR, marcação e inspeções (IQC).
- Passo 5: controle de mudanças: qualquer troca ASTM↔ASME deve ser avaliada e registrada (qualidade/engenharia).
6) Erros comuns (e como evitar retrabalho)
- Confundir “equivalente” com “aceito”: equivalente químico/mecânico não garante aceitação formal no código.
- Comprar sem definir a norma no pedido e depois tentar “encaixar” no recebimento.
- Não travar edição/ano da norma em contrato e gerar disputa com fornecedor.
- Especificar tubo certo e fitting errado (incoerência de classe).
- Ignorar rastreabilidade em projeto crítico (offshore/naval) e perder controle de qualidade.
7) E em naval/offshore: muda algo?
Em ambiente naval e offshore, além de códigos ASME (quando aplicáveis), você pode ter requisitos de classe (DNV, ABS, LR, BV) e do cliente, especialmente para rastreabilidade, resistência à corrosão e controle de fabricação. O ponto central continua: documento aplicável manda. Se há exigência de materiais conforme ASME Section II ou listas aprovadas pela classe, você precisa fechar o triângulo: spec + código + certificação.
8) Checklist rápido de recebimento (IQC) para evitar dor de cabeça
- Norma correta (ASTM/ASME) e edição conforme pedido;
- Grau correto (Gr B, F316, WPB etc.);
- Dimensões (NPS, SCH, OD, t) e tolerância;
- MTR completo com química e mecânica;
- Heat number e marcação no material;
- Conformidade com requisitos suplementares (impacto, END, tratamento, etc.) quando exigidos.
Leia também (Engeminds)
- Schedule/espessura: como escolher (visão de projeto)
- UT em tubulação: como medir perda de espessura e avaliar criticidade
- Como ler uma NBR
Fontes e referências
- ASTM International — especificações de materiais e produtos (ex.: ASTM A106, A53, A333, A312), conforme aplicabilidade e edição contratual.
- ASME BPVC Section II — Materials (SA/SB: materiais aceitos pelo código ASME para aplicações conforme BPVC, quando aplicável).
- ASME B31 (série) — códigos de tubulação de processo/energia/refrigeração etc. (critérios de projeto e materiais aceitos, conforme aplicabilidade).
- ASME B36.10 e ASME B36.19 — tabelas dimensionais de tubos (aço carbono e inox).
- API 570 — Piping Inspection Code (integração com integridade e requisitos de inspeção, quando adotado pelo cliente).
Este conteúdo é educacional. Para especificação e aceitação formal, use as normas e códigos aplicáveis ao seu contrato (edição vigente/licenciada), requisitos do cliente e, quando aplicável, regras de classe e procedimentos internos de qualidade.
Autor: Engeminds • Revisão técnica: Eng. Wellington Souza • Contato: contato@engeminds.com
