Rastreabilidade e MTR/CMTR
Em fabricação e manutenção industrial (e também em naval/offshore), uma das não conformidades mais caras não vem de solda nem de pintura: vem de material sem rastreabilidade. Um lote sem certificado, um número de corrida (heat) perdido, uma etiqueta trocada, ou um certificado que “parece correto” mas não bate com a especificação pode travar inspeção, gerar retrabalho, atrasar entrega e até invalidar a conformidade do equipamento. É aqui que entram os MTR/CMTR (Material Test Report / Certified Material Test Report) — os certificados de material que provam, de forma auditável, o que o material é, como foi produzido e se atende aos requisitos de norma/contrato. Neste guia Engeminds, você vai aprender a ler um certificado sem cair em pegadinhas, entender EN 10204 (2.1, 2.2, 3.1, 3.2), conferir composição e propriedades mecânicas, verificar rastreabilidade (heat/lot), e montar um checklist para evitar NCs e “material travado” no QA/QC.
Tempo de leitura: 25–30 min • Autor: Equipe Engeminds • Revisão técnica: Eng. Wellington Souza
TL;DR — o que mais reprova certificado (e como evitar)
- Certificado não é “papel bonito”: ele precisa bater com especificação (ASTM/ASME/EN), com o item físico e com o pedido.
- Rastreabilidade exige ligação entre peça e certificado (heat/lot, etiqueta, marcação e mapa de corte).
- Verifique sempre: grau do material, norma de fabricação, dimensão, heat/lot, composição, propriedades mecânicas e tratamento térmico (quando aplicável).
- CMTR/3.1/3.2 têm peso diferente de 2.1/2.2. Em auditoria, a classe do certificado importa.
- Erros comuns: heat não bate, unidades confusas, propriedades fora de faixa, certificado “genérico”, assinatura inválida e ausência de testes exigidos.
1) O que é rastreabilidade de material (e por que ela é inegociável)
1.1 Rastreabilidade em termos práticos
Rastreabilidade é a capacidade de provar que uma peça (chapa, perfil, tubo, flange, parafuso, forjado) veio de um lote específico e que esse lote atende aos requisitos. Na prática, isso significa conseguir responder, com evidência:
- Qual é o material? (norma e grau: ex.: ASTM A36, A516 Gr.70, A105, A106 Gr.B, etc.)
- Qual é o lote/corrida? (heat number / melt / lot / charge)
- Quais testes foram feitos e com que resultados? (química, mecânica, impacto, dureza, NDE, etc., conforme exigido)
- Qual é o vínculo com o item físico? (marcação, etiqueta, mapa de corte, registro de recebimento, rastreio interno)
1.2 O que acontece quando “perde” rastreabilidade
Quando uma peça perde identificação do heat/lot, ela vira “material desconhecido”. Mesmo que pareça igual, em QA/QC sério isso pode gerar:
- Bloqueio de recebimento e “hold point” de inspeção.
- Necessidade de testes adicionais (PMI, ensaio mecânico, impacto), com custo e prazo.
- Rejeição e sucateamento (especialmente em itens críticos ou contratos rígidos).
- NC formal, impacto em auditoria e risco de não conformidade contratual.
2) MTR, CMTR e EN 10204: qual documento você tem em mãos?
2.1 MTR vs CMTR (terminologia comum no mercado)
- MTR (Material Test Report): relatório de ensaios do material (química/mecânica), geralmente emitido pelo fabricante (ou repassador, conforme cadeia).
- CMTR (Certified Material Test Report): MTR “certificado”, normalmente com declaração formal de conformidade e assinatura/autorização, com maior peso em auditoria.
Observação importante: o uso desses termos varia por país/indústria. Em auditorias e contratos, frequentemente a exigência é expressa pela EN 10204 (2.1, 2.2, 3.1, 3.2) ou pelo código aplicável (ASME/ASTM) com requisitos de documentação.
2.2 EN 10204 (2.1 / 2.2 / 3.1 / 3.2) — a hierarquia da “força” do certificado
- 2.1 — Declaração de conformidade: afirma que o produto atende ao pedido, sem resultados de ensaios específicos por lote.
- 2.2 — Relatório de ensaio: inclui resultados de ensaios, mas não necessariamente rastreabilidade e certificação formal no nível 3.x.
- 3.1 — Certificado de inspeção: resultados de ensaios do lote, emitido pelo fabricante com responsável autorizado e rastreabilidade (o mais comum em projetos industriais exigentes).
- 3.2 — Certificado de inspeção com validação adicional: além do fabricante, há verificação/validação por uma terceira parte (ou representante do comprador), conforme especificado.
Em termos de projeto: se o contrato pede 3.1 e você entrega 2.2, isso pode ser não conformidade, mesmo que o material “seja bom”. A exigência é documental e rastreável.
3) Como ler um MTR/CMTR (checklist completo de interpretação)
3.1 Cabeçalho: identifique o “quem, o quê e para quem”
- Fabricante: nome, endereço, planta (quando aplicável).
- Cliente/ordem: PO, contrato, item de pedido, projeto.
- Produto: chapa, tubo, flange, barra, parafuso, arame, etc.
- Norma e grau: ASTM/ASME/EN (ex.: ASTM A106 Gr.B; ASTM A516 Gr.70; ASTM A105; etc.).
- Dimensões: diâmetro, espessura, schedule, largura/comprimento, massa.
- Quantidade e identificação: tag, bundle, peça, pacote.
3.2 Rastreabilidade: heat/lot é o “CPF” do material
Procure os campos: Heat No., Melt No., Lot No., Charge, ou similares. Em seguida, pergunte:
- O heat/lot do certificado coincide com a marcação no material (stencil, punção, etiqueta, gravação)?
- Se foi cortado/rebobinando/reprocessado: existe mapa de corte e transferência de rastreio (traceability transfer)?
- Existe “mix” de heats no mesmo certificado? Se sim, está bem segregado por item?
3.3 Composição química: o material é realmente aquele grau?
A composição química é um “fingerprint”. Verifique:
- Elementos principais: C, Mn, Si, P, S (e outros conforme liga).
- Limites máximos: P e S são críticos em muitos aços.
- Elementos de liga: Cr, Ni, Mo, V, Nb, Ti, B etc. (conforme especificação).
- Carbon Equivalent (CE): quando aplicável para soldabilidade (se o certificado trouxer).
Dica Engeminds: se o certificado não cita claramente a norma/grau, ou apresenta química “fora da cara” do material, isso é sinal de alerta para revisão imediata.
3.4 Propriedades mecânicas: não basta “ter” — precisa estar na faixa e na unidade correta
- Limite de escoamento (YS / Rp0.2): verifique mínimo exigido.
- Resistência à tração (TS / Rm): verifique faixa (muitas normas definem mínimo e/ou faixa).
- Alongamento (%El): depende de seção, comprimento de corpo de prova e norma.
- Dureza (HB/HRC/HV): quando exigida.
- Impacto (Charpy): energia (J) e temperatura (°C) quando exigido (muito comum em baixa temperatura/naval/offshore).
Atenção às unidades: MPa vs ksi, J vs ft·lbf, °C vs °F. Um erro de unidade pode virar NC grave.
3.5 Tratamento térmico e condição de fornecimento
O certificado deve indicar a condição: AR (as rolled), N (normalized), QT (quenched & tempered), SR (stress relieved) etc., conforme aplicável. Isso é crítico porque as propriedades dependem do tratamento térmico. Em auditoria, material “certo” mas condição errada pode ser rejeitado.
3.6 Ensaios adicionais e requisitos especiais
Dependendo do contrato/código, o certificado pode precisar trazer:
- PMI (identificação positiva de material), especialmente em ligas e inox.
- NDE de laminação (UT em chapas), quando especificado.
- Ensaios de dobramento, macro, micro, ou outros específicos.
- Requisitos de “Supplementary Requirements” em normas ASTM (ex.: requisitos adicionais solicitados no pedido).
4) Rastreabilidade no dia a dia (recebimento, almoxarifado, corte e fabricação)
4.1 Recebimento (incoming inspection): o ponto onde tudo começa
- Conferir PO/contrato x certificado x item físico (grau, norma, dimensão, quantidade).
- Conferir heat/lot na peça e no documento.
- Registrar: data, fornecedor, nota fiscal, certificado, fotos da marcação, e status (liberado/hold).
- Segregar fisicamente materiais diferentes (evitar mistura no estoque).
4.2 Almoxarifado e etiquetação
A rastreabilidade “morre” quando a etiqueta cai. Use uma disciplina mínima:
- Etiqueta resistente (ambiente marinho/óleo/sol), com número de heat/lot e código interno.
- Localização fixa no estoque e segregação por grau.
- Registro de movimentação (entrada/saída), vinculando consumo ao job/ordem.
4.3 Corte e transferência de rastreio (o ponto mais crítico em chapas/perfis)
Quando você corta uma chapa, você cria “novos itens” que precisam herdar o heat/lot. Boas práticas:
- Antes do corte: registrar stencil/heat e fotografar.
- Após corte: transferir marcação para cada peça (punção, stencil, tag metálica) conforme procedimento.
- Manter mapa de corte (nesting) linkando cada peça ao heat original.
- Evitar “sobras sem identidade”: peça sem heat vira risco de sucata/PMI caro.
4.4 Fabricação e montagem
- Relacionar material consumido ao W.O./job e ao desenho (lista de material / BOM).
- Em itens críticos, manter travelers ou “dossiê” de fabricação (MTR + registros).
- Em reparos, registrar substituições e atualizar o dossiê (as-built).
5) Principais não conformidades com MTR/CMTR (e como resolver)
5.1 Heat não bate com a peça
- Sintoma: certificado apresenta heat “X”, mas a marcação física é “Y” (ou inexistente).
- Ação imediata: colocar em HOLD e bloquear uso.
- Correções possíveis: confirmar com fornecedor (erro de etiquetagem/documento), solicitar novo certificado, ou realizar PMI/ensaios conforme aceitação do cliente.
5.2 Norma/grau divergente do pedido
- Sintoma: PO pede A516 Gr.70 N, chega A516 Gr.70 AR (exemplo).
- Risco: propriedades fora, soldabilidade/tenacidade diferente, reprovação em auditoria.
- Ação: avaliar tecnicamente (engenharia) e contratualmente (cliente/inspeção) antes de aceitar substituição.
5.3 Propriedades mecânicas fora da faixa
- Sintoma: YS/TS/El/Charpy não atende.
- Ação: rejeição ou tratativa formal de desvio (se o contrato permitir). Não “passa pano”.
5.4 Certificado “genérico” ou sem assinatura válida
- Sintoma: falta identificação do fabricante, falta responsável, sem carimbo/assinatura conforme tipo 3.1/3.2.
- Ação: solicitar certificado correto. Em 3.2, validar a forma de coassinatura/terceira parte conforme contrato.
5.5 Unidades e métodos de ensaio não informados
Em projetos críticos, você precisa saber: qual método? qual norma de ensaio? qual temperatura de impacto? Se o certificado não deixa isso claro, ele pode ser insuficiente para aceitação formal.
6) Como evitar NC: o sistema Engeminds de rastreabilidade “à prova de auditoria”
6.1 Estruture um fluxo simples (que funciona até em empresa pequena)
- Recebeu material? Só entra no estoque após conferência documental + marcação física.
- Vai cortar? Foto + mapa de corte + transferência de heat.
- Vai fabricar? Traveler/dossiê do item com MTR anexado.
- Vai pintar/fechar? Checar rastreabilidade antes de perder acesso à marcação.
- Vai entregar? Dossiê final com MTR/CMTR e lista de itens/heat usados.
6.2 Checklist de leitura de certificado (pronto para usar)
- Norma e grau corretos (ASTM/ASME/EN) e compatíveis com o pedido?
- Dimensão e condição de fornecimento (AR/N/QT) corretas?
- Heat/Lot presente e bate com a marcação física?
- Química dentro dos limites da norma?
- Mecânicas dentro das faixas (YS/TS/El) e impacto (se exigido) na temperatura correta?
- Tipo de certificado atende (2.2 vs 3.1 vs 3.2) conforme contrato?
- Assinatura/carimbo e responsável autorizado presentes?
6.3 PMI: quando vale a pena e quando é “último recurso”
PMI (Positive Material Identification) é excelente para confirmar liga/química (especialmente em inox/ligas), mas não substitui um certificado completo de propriedades mecânicas e tratamento térmico. Use PMI como:
- Ferramenta de verificação de recebimento em itens críticos.
- Plano de contingência quando rastreabilidade foi perdida (com aprovação do cliente/inspeção).
- Controle de mistura de materiais em estoque (erro de segregação).
7) Erros comuns (e por que eles sempre aparecem em auditoria)
- “O fornecedor sempre manda certo” — confiança não substitui verificação.
- Guardar certificado em PDF sem link com o item físico — rastreabilidade precisa existir no chão.
- Perder heat no corte — sobras sem marcação viram sucata cara.
- Aceitar 2.2 quando o contrato pede 3.1 — isso é NC documental, independente da qualidade real.
- Não conferir temperatura de impacto — muito comum em offshore/naval (tenacidade é crítica).
- Confundir “equivalência” sem aprovação — material “parecido” não é automaticamente aceito.
Leia também (Engeminds)
- ASME Section V na prática: o que ela exige em END e como funciona a qualificação (N1/N2/N3)
- Líquido Penetrante (PT/LP): passo a passo do procedimento + critérios de aceitação
- Partículas Magnéticas (MT/PM): quando aplicar, limitações e erros comuns
- UT em tubulação: como medir perda de espessura e avaliar criticidade (guia prático)
Fontes e referências
- EN 10204 — Metallic products — Types of inspection documents (2.1, 2.2, 3.1, 3.2 e seus significados).
- ASTM (diversas) — especificações de materiais (ex.: ASTM A36, A516, A106, A105, etc.) e requisitos de química/mecânicas conforme produto.
- ASME BPVC (quando aplicável) — requisitos documentais e rastreabilidade em contratos ASME (conforme seção/código referenciador).
- ISO 9001 — conceitos de controle de fornecedores, rastreabilidade e registros (abordagem sistêmica de qualidade).
- Requisitos contratuais do projeto (PO, datasheets, ITP, especificações do cliente, classe/bandeira quando aplicável).
Nota legal: este artigo tem finalidade educacional. Para aceitação formal de materiais, prevalecem os requisitos do contrato, as normas aplicáveis (EN/ASTM/ASME/ISO) e os procedimentos aprovados do seu sistema de qualidade/cliente. Em caso de divergência, siga a documentação contratual vigente e registre tratativas de desvio formalmente.
Autor: Equipe Engeminds • Revisão técnica: Eng. Wellington Souza • Contato: contato@engeminds.com
